ISSN (on-line): 2177-9465
ISSN (impressa): 1414-8145
Escola Anna Nery Revista de Enfermagem Escola Anna Nery Revista de Enfermagem
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Ministério da Educação
CAPES

Volume 18, Número 2, Abr/Jun - 2014



DOI: 10.5935/1414-8145.20140029

PESQUISA

Percepções de adolescentes sobre uso/dependência de drogas: o teatro como estratégia pedagógica

Gertrudes Teixeira Lopes 1
Margarida Maria Rocha Bernardes 2
Ana Paula Lopes Pinheiro Ribeiro 3
Priscila Cortez Belchior 1
Lívia Moreira Delphim 1
Rogério da Silva Ferreira 1


1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro - RJ, Brasil
2 Universidade Estácio de Sá. Centro Universitário Augusto Motta. Rio de Janeiro - RJ, Brasil
3 Universidade Veiga de Almeida. Rio de Janeiro - RJ, Brasil

Recebido em 11/09/2012
Reapresentado em 24/07/2013
Aprovado em 10/10/2013

Autor Correspondente:
Gertrudes Teixeira Lopes
E-mail: gertrudeslopes@gmail.com

RESUMO

Este estudo objetivou descrever a percepção dos adolescentes sobre uso/abuso de drogas; e analisar a compreensão dos estudantes sobre uso/abuso de drogas a partir da utilização do teatro como estratégia pedagógica.
MÉTODOS: Participaram 111 estudantes do ensino fundamental do CAP/UERJ. Utilizou-se o teatro não verbal como estratégia pedagógica, realizado por militares da Guarda Municipal do Rio de Janeiro, com o diálogo entre atores e estudantes após apresentação. A autorização dos alunos foi dada por seus representantes legais. Projeto aprovado pelo CEP/UERJ, protocolo 015.3.2008. Os dados foram obtidos em 2010 por escrito, e foram gravados depoimentos. Os resultados evidenciaram que os estudantes perceberam a dimensão do uso/dependência das drogas e suas consequências. Conclui-se que o assunto e a forma de apresentação despertaram interesse, estimularam o debate, elucidaram dúvidas e reflexões. O teatro, como atividade criativa e criadora de sentimentos, expectativas e sensações, constitui-se em estratégia pedagógica facilitadora da aprendizagem.


Palavras-chave: Enfermagem; Promoção da saúde; Transtornos Relacionados ao uso de substâncias; Adolescente.

INTRODUÇÃO

A produção e o consumo de drogas, uma prática humana, milenar e universal, estiveram presentes na história de algumas sociedades, as quais, em todos os tempos, recorreram ao seu uso com diversas finalidades.

A partir de 1960, particularmente nos países industrializados, o consumo de drogas gradativamente tem-se potencializado, trazendo para o senso comum a certeza de que se trata de um grave problema mundial, podendo acarretar riscos à saúde.

Nesse sentido, a Organização Mundial de Saúde considera o uso/abuso de drogas como um grave problema de saúde pública, o que veio a despertar o interesse de pesquisadores sobre a temática.

Entre os grupos humanos de maior vulnerabilidade ao uso de substâncias psicoativas destacam-se as crianças e os adolescentes. A vulnerabilidade deve ser entendida como produto da interação entre características individuais, estruturas sociais de desigualdade de acesso a informações e oportunidades que produzem sentidos para o próprio sujeito e o mundo em que ele está inserido1.

Experimentação de álcool e outras drogas durante a adolescência é comum. Infelizmente, os adolescentes muitas vezes não veem a ligação entre suas ações de hoje e as consequências de amanhã. Eles também tendem a se sentir indestrutíveis e imunes aos problemas que os outros vivenciam. Enquanto alguns adolescentes experimentam e param ou continuam a usar ocasionalmente, sem problemas significativos, outros desenvolvem dependência, passam a usar drogas mais perigosas e causar dano significativo para si e, possivelmente, para outros. Adolescentes em situação de vulnerabilidade ao consumo grave de álcool e problemas com drogas incluem aqueles com história familiar de transtornos por uso de substâncias, os que estão deprimidos, os que têm baixa autoestima e aqueles que não se encaixam ou estão fora do contexto social2.

Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069, artigo nº 243, constitui crime vender, fornecer, ministrar ou entregar a crianças e adolescentes produtos que possam causar dependência física ou psíquica, como as drogas lícitas e ilícitas3. No entanto, o que se tem constatado no Brasil é a precocidade da experimentação de bebidas alcoólicas por estudantes na faixa etária média de 12 anos4.

Este dado de realidade torna-se ainda mais preocupante quando se leva em consideração o uso contínuo de tais substâncias, já que o Levantamento do Governo Federal aponta que 52% dos brasileiros ingeriram bebidas alcoólicas pelo menos uma vez ao ano, e que 24% dos adolescentes admitem ter ingerido bebidas alcoólicas uma vez por mês5.

A adolescência é uma fase intermediária do desenvolvimento humano, que compreende o período entre infância e idade adulta, marcado por transformações físicas, psíquicas, hormonais e comportamentais. Nesse momento, os adolescentes passam pela crise de identidade e busca de autonomia, com o intuito de se reafirmar e ganhar liberdade de escolha6.

Considerando as características inerentes à adolescência, as práticas pedagógicas a serem adotadas com este grupo devem ser cuidadosamente selecionadas e desenvolvidas por profissionais qualificados e capacitados para atender às necessidades peculiares deste ciclo da vida. A escolha dessas práticas deve ter como princípios a horizontalização entre educador e educando e a valorização da autoestima, afirmação, intelectualização, fantasia, ação e expressão de sentimentos7.

Assim, na seleção de uma determinada prática pedagógica, que tenha como objetivo alcançar o público adolescente, a atenção deve ser redobrada em relação à definição de métodos e estratégias de abordagem, para que possam suscitar o interesse e despertar a participação deste grupo. A estratégia pedagógica lúdica, como o teatro, adéqua-se ao tema árido, como, por exemplo, álcool e drogas, e pode se converter em um canal de interação capaz de potencializar esse interesse, pois se sabe que a inquietude natural desta fase da vida requisita atividades dinâmicas e que despertem a curiosidade.

As abordagens pedagógicas que fomentem o diálogo, podem se revestir de um instrumento potente para reflexão e discussão acerca da promoção da saúde e prevenção de riscos ao uso de substâncias, e certamente contribuirão no delineamento de estilos de vida que serão adotados pelos adolescentes. Portanto, a discussão conjunta, a reflexão e a escuta podem se tornar mecanismos facilitadores para a imersão dos adolescentes no diálogo, muitas vezes escamoteados pelas famílias, pela escola e pela sociedade. Por outra visão, estas iniciativas dialógicas também podem atuar como fagulhas na transmissão e multiplicação de informações no grupo social do qual fazem parte.

Nesta perspectiva e considerando a magnitude que a problemática incorpora, definimos como objeto do estudo a percepção dos adolescentes sobre o uso/dependência de drogas a partir da utilização de estratégia pedagógica alicerçada na linguagem cênica.

Para desenvolver a pesquisa, derivamos como objetivo: descrever a percepção dos adolescentes sobre o uso/abuso de drogas a partir da utilização do teatro como estratégia pedagógica, discutindo a aplicação/aplicabilidade de tal estratégia para a abordagem da temática drogas.

Este estudo se justifica pela precocidade do uso de substâncias psicoativas entre adolescentes, pela vulnerabilidade crescente a que são expostos no dia a dia em diferentes camadas da sociedade e também pelas consequências que este uso, cada vez mais cedo, pode provocar no desenvolvimento cognitivo da pessoa e nos possíveis comportamentos de riscos a serem adotados. A pertinência do diálogo de modo contextualizado, ao tempo em que desconstrói informações muitas vezes equivocadas e ingênuas, possibilita percepções adequadas quanto à inicialização e posterior consumo. Desse modo, torna-se necessário trabalhar o tema drogas de modo a elucidar entre os adolescentes os diversos e diferentes processos decorrentes do seu uso.

METODOLOGIA

A opção metodológica neste estudo foi pela abordagem qualitativa, por ser rica em dados descritivos e considerar a realidade de forma contextualizada, complexa e, ao mesmo tempo, aberta e flexível8.

O cenário do estudo foi uma instituição de ensino fundamental e médio, Colégio de Aplicação, pertencente a uma Universidade no Estado do Rio de Janeiro.

A população foi constituída de 111 estudantes matriculados no 6º ano do ensino fundamental, integrantes de quatro turmas da referida Instituição. A escolha do 6º ano foi decorrente da opinião dos docentes, após enquete por escrito, ao considerarem que neste período os adolescentes passam por uma fase de transição tanto em relação à idade como ao novo ciclo de estudos. As reuniões aconteceram no dia 26 de agosto de 2010 no auditório, com dois grupos distintos, sendo o primeiro grupo no horário de 8h00 às 9h40 e o segundo, de 10h00 às 11h40, para que fosse assegurado aos estudantes um cenário mais adequado à atividade pedagógica.

Inicialmente, os pesquisadores utilizaram estratégias motivacionais apresentando a temática e valorizando o trabalho que seria desenvolvido, para que se estabelecesse a confiança entre os participantes. A motivação, como estratégia pedagógica, tem como função estimular de forma direta o tipo de envolvimento com o conteúdo da aprendizagem, não se aplicando apenas ao desempenho, mas, principalmente, ao processamento de informações que utilizam para aprender conteúdos e habilidades, como fazer tarefas, compreender textos, entender explicações, para transformá-los e adequá-los ao seu entendimento5.

Este artigo oriundo de uma das etapas do projeto de pesquisa denominado "Álcool no espaço da escola fundamental e o enfermeiro: desafios na promoção da saúde e prevenção de riscos" teve início em 2007 e se desenvolve em escolas públicas do ensino fundamental da cidade do Rio de Janeiro, atingindo no momento três escolas. Utiliza-se de estratégias pedagógicas lúdicas, como dinâmicas de criatividade e sensibilidade, e se concretiza em cinco encontros, durante o período escolar, uma vez por mês, de acordo com o cronograma da escola.

Entre as atividades desenvolvidas inclui-se uma peça de teatro, apresentada no terceiro encontro. As demais atividades são: acolhimento, jogo interativo de perguntas e respostas, projeção de filmes, oficinas de trabalho para elaboração de produções artísticas, painéis sobre a temática, e brincadeiras com música e dança. Após as atividades procede-se ao diálogo para esclarecimento das dúvidas e curiosidades.

A atividade selecionada para este artigo foi uma peça de teatro, não verbal, encenada em aproximadamente trinta minutos pelos militares da Guarda Municipal do Rio de Janeiro. A peça aborda questões relacionadas a drogas de maneira geral e de forma evolutiva mostra o continuum para o uso/abuso/dependência de álcool e outras drogas. Enfatiza ainda o apoio de instituições sociais e familiares, além de retratar o sofrimento causado pela dependência de drogas ao próprio usuário e sua família, as possíveis consequências e as dificuldades relacionadas ao abandono do seu consumo.

Optou-se pela linguagem cênica para apresentar o assunto, porque as estratégicas pedagógicas tradicionais, diretivas e monótonas talvez não fossem consideradas suficientes e motivadoras para superar as expectativas dos estudantes sobre o tema.

Ao final da apresentação foi aberto o diálogo entre os adolescentes e os atores por um período de uma hora, ocasião em que as dúvidas, as curiosidades e as experiências foram relatadas por ambas as partes, constituindo-se em um momento de reflexões e trocas.

Após a dinâmica, os 111 adolescentes foram convidados a escrever suas percepções sobre o uso/abuso de drogas a partir do conteúdo encenado. Para tanto, foram oferecidos papel em branco e caneta para que dessem respostas às seguintes questões orientadoras: O que você entendeu da peça? Que mensagens na peça mais chamaram a sua atenção sobre o uso das drogas? Após escreverem suas percepções, convidamos os adolescentes que desejassem falar voluntariamente sobre a peça, e nove se motivaram a gravar suas impressões, respondendo às mesmas questões. Estes compuseram os sujeitos do estudo, os quais foram codificados por letras do alfabeto atribuídas, aleatoriamente, entre os pesquisadores (M, A, C.R, D, S, B, W, J).

Os dados obtidos foram transcritos e analisados em conjunto, já que se tratava de informações discursivas e descritivas oriundas das percepções dos estudantes sobre o tema. Diante das informações obtidas, realizamos a análise dos dados de acordo com as orientações da análise temática de conteúdo de Bardin9 (leitura flutuante material, definição das unidades de registro; nomeação e identificação dos temas), classificação de dois eixos temáticos "A experimentação como possibilidade para dependência química" e "As implicações do uso contínuo de drogas para os usuários".

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), protocolo nº 015.3.2008, atendendo aos preceitos da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi assinado pelos responsáveis dos estudantes e pela Guarda Municipal do Rio de Janeiro, que autorizaram a publicação dos resultados.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

É inegável a sedução e a curiosidade que o assunto suscita, especialmente quando apresentado pela perspectiva da linguagem lúdica. Muito embora o tema faça parte da vida cotidiana das pessoas, e dos meios de comunicação, com ênfase na mídia escrita e falada, nos meios eletrônicos e nas rodas de conversas entre os adolescentes, tais informações, pela sua abrangência e difícil controle dos conteúdos divulgados, podem ao mesmo tempo gerar orientações, mas também servir de estímulo à curiosidade deste grupo, cujas vulnerabilidades se arranjam em diferentes e variadas possibilidades.

Assim, da análise das narrativas das percepções escritas e oral dos adolescentes sobre a peça teatral, dois eixos temáticos foram evidenciados.

A Experimentação como Possibilidade para Dependência Química

A experimentação é o primeiro contato que o indivíduo tem com substâncias psicoativas, e isso geralmente ocorre em festas, baladas ou em ocasiões oportunas. A experimentação pode ser o início de outras fases, podendo desencadear o uso eventual ou recreativo, ou mesmo chegar ao abuso e à dependência.

Nem sempre essas fases são percorridas de forma linear por todas as pessoas que experimentaram substâncias psicoativas, mas, via de regra, dependendo da substância e das predisposições individuais, este é um ponto de partida ao uso descontrolado. Por outro lado, nem todos os sujeitos que experimentaram desenvolveram as fases subsequentes, permanecendo na experimentação3.

Neste sentido, os adolescentes foram sensíveis ao perceber que tudo começa com a experimentação, ou seja, na aproximação com a substância, como retratado na atividade teatral. Assim, perceberam que o acesso às drogas pode se constituir em ponto de partida para a inicialização ao seu uso.

Foi muito tocante porque mostrou o ciclo como uma pessoa comum entra na onda das drogas (M).

Muitas pessoas pensam que se experimentar uma vez nunca vicia, mas vicia e não dá para se livrar (C).

Quando se começa a usar drogas é muito difícil largar (A).

É perceptível nestes excertos a percepção que os adolescentes tiveram ao associarem a inicialização ao uso de substâncias como parte de um ciclo, com possibilidades de vir a fazer uso, e até uso descontrolado, não ficando apenas no campo da experimentação. Por este ponto de vista, a atividade teatral alcançou o seu intento de levar à reflexão e à incorporação de conhecimentos que dimensionam as possibilidades advindas do uso, mesmo que por curiosidade, da droga.

A linguagem não verbal, mímica utilizada pelo grupo teatral para apresentar situações cotidianas sobre o uso/abuso de drogas, foi, portanto, uma estratégia apropriada e inovadora que levou à reflexão dos estudantes, possibilitou a interação singular entre os participantes, ao tempo em que gerou um ambiente de expectativas, observáveis pelo silêncio e pelos olhares direcionados para os atores, numa atitude de tentar compreender a dimensão retratada pelo texto da peça10.

A inicialização precoce do uso de drogas na adolescência, muitas vezes facilitada pelo acesso às substâncias, pela permissividade de algumas famílias e pela sociabilidade própria dessa fase da vida, vai de encontro às determinações do Estatuto da Criança e do Adolescente, que proíbe o uso até a maioridade2.

A legislação brasileira de proteção do adolescente para o uso de drogas define a adolescência como o período etário que vai dos 12 aos 18 anos de idade, podendo ser aplicado a pessoas de 18 a 21 anos em situações especiais2. Estudos realizados com adolescentes no Brasil evidenciam que o uso de substâncias, especialmente o álcool, geralmente acontece em torno dos 12 anos de idade, com tendência cada vez mais à precocidade"11,12. Quando ocorre com crianças e adolescentes em situação de rua, a faixa etária fica entre 10 e 18 anos, ou seja, mais precocemente, em decorrência das vulnerabilidades a que estão submetidos cotidianamente12.

Foi possível, ainda, identificar que o uso experimental de substâncias pode desencadear um consumo mais abusivo e, inclusive, chegar à dependência. Neste aspecto, já está comprovado que, na adolescência, o consumo de álcool e outras drogas pode ter efeitos nefastos ao cérebro humano, uma vez que este se encontra em processo de desenvolvimento; portanto, o uso contínuo de substâncias nesta fase pode-se traduzir em déficit cognitivo, diminuição da motivação, dificuldade de relacionamento social, prejuízo da memória e da atenção, cuja dimensão é incalculável para a vida do indivíduo13.

Outro fator influente no uso de drogas está quase sempre associado a estímulos oriundos dos mais diversos ambientes sociais. Na adolescência, a vulnerabilidade a estes fatores está presente na vida do adolescente e encontra respaldo na própria maneira de ser e ver o mundo. Nesta fase, os amigos são referências para o seu desenvolvimento social. Assim, podem exercer papel importante nas escolhas a serem feitas.

É muito fácil entrar nas drogas, mas é difícil sair, e, na maioria das vezes, as pessoas entram nas drogas por influência dos amigos (R).

A peça teatral, com sua linguagem cênica, não verbal, mostra como as influências externas, principalmente dos amigos, podem estimular a curiosidade dos adolescentes para a experimentação e, posteriormente, até para o uso e abuso de substâncias11. Corroborando essa ideia, um estudo realizado com adolescentes matriculados no ensino fundamental e médio em São Paulo mostrou baixo consumo de tabaco; entretanto, evidenciou elevado padrão de consumo de álcool e idade média na iniciação do uso desta substância em torno dos 13 anos, ocorrendo, principalmente, em festas com os amigos ou em casa junto aos familiares14.

Neste aspecto, importa reforçar também a influência dos meios de comunicação, por meio das propagandas, como fonte de estímulo para o uso do álcool, considerando ser esta uma droga lícita, de fácil acesso para toda a população e aceita pela sociedade15. Assim, a propaganda, com ídolos da juventude, dos esportes e formadores de opinião, torna-se forte referência a ser seguida pelos adolescentes11.

Os adolescentes reconhecem ainda que a experimentação é uma das possibilidades para a dependência química, o que está em consonância com os resultados demonstrados nos estudos4,13,16.

A droga é altamente viciante e mesmo em pequenas quantidades é prejudicial. Quando se começa a usar drogas, alguns não conseguem largar, e acabam levando à morte. Outros conseguem largar, mas acabam ficando com alguns problemas, como respiração, entre outros, além de sua autoestima e o seu corpo ficarem mais vulneráveis (S).

A droga faz mal e pode até matar! SE LIGUE, não tem essa de só um "tiquinho", pois este "tiquinho" será o início de um vício, muito difícil de combatê-lo, fique esperto. Não se deixe levar! (D).

Esta forma de os adolescentes perceberem os efeitos das drogas no organismo pode também ser decorrente de suas experiências e vivências cotidianas, uma vez que eles foram além do que a peça de teatro representou. Isso revela certo grau de conhecimento do assunto, ao expressarem a pluralidade de comportamentos e efeitos que as drogas podem produzir no organismo humano13.

É importante ressaltar que existem fatores explicativos, hoje comprovados, que influenciam o desenvolvimento da dependência química, como a genética, a neurobiologia, o comportamento, a personalidade, bem como o ambiente em que o sujeito convive16.

Em relação aos fatores neurobiológicos sabe-se que as drogas de abuso possuem um mecanismo comum, ou seja, provocam o aumento e a liberação do neurotransmissor dopamina DA na via mesolímbica, gerando a sensação de prazer16. Esta forma hedonista, qual seja, a tendência de considerar que o prazer individual e imediato se constitui na finalidade da vida, é o que sustenta inicialmente a escolha e assegura a continuidade do uso indiscriminado de drogas11.

Sabe-se que a escola tem papel fundamental na elucidação de questões que possam fortalecer a formação do cidadão, realçando os fatores protetores e discutindo os fatores de riscos próprios de seu ambiente social que influencia sua vida, não apenas como mero expectador ou ouvinte, mas como ator principal do seu desenvolvimento cognitivo, afetivo, comportamental, na sociedade em que vive. No entanto, para intervir em tais fatores, os professores precisam se capacitar para que possam fazer frente a uma questão que é, ao mesmo tempo, multicausal, preconceituosa e descriminalizante.

Este é um grande desafio para a escola fundamental, que deve investir em projetos pedagógicos que ressaltem a confiança, o desenvolvimento de situações sociais e afetivas, e o estímulo às atividades sadias, capazes de transformar riscos em proteção11.

Junto à escola, o enfermeiro tem papel de destaque no desenvolvimento de estratégias pedagógicas que promovam a reflexão e o debate sobre a promoção da saúde e prevenção de riscos, com destaque para a saúde do escolar, considerando que este é um dos campos de conhecimentos deste profissional15. Nesse compromisso, decodificar para os adolescentes informações confiáveis em relação às drogas é função inerente à prática profissional do enfermeiro11.

Desse modo, a articulação dos enfermeiros com os professores do ensino fundamental constitui-se em pedra angular de divulgação dos princípios basilares que fundamentam a prevenção, ressignificando para os adolescentes os conceitos de bem-estar e de bem-viver social11.

As Implicações do Uso Contínuo de Drogas para os Usuários

Esta categoria aborda as percepções dos estudantes em relação às questões da dependência, como algo não determinado pelos sujeitos, a dificuldade de procurar e aceitar tratamento, a convivência conflituosa com familiares, o entendimento das consequências negativas do uso contínuo de substâncias, e dos efeitos nocivos das drogas no organismo, e as dificuldades nas relações familiares, com amigos, além dos sentimentos de perda quando se tornam dependentes. Alerta ainda para a conscientização sobre o não uso de drogas e da transmissão desse aprendizado a outras pessoas.

O uso contínuo de drogas implica alterações e distúrbios que podem comprometer o indivíduo em diferentes segmentos da vida. Estas implicações podem se evidenciar nos aspectos físicos quando o usuário chega à dependência química e às comorbidades, sociais, familiares e de trabalho.

Os efeitos nocivos do uso descontrolado e contínuo acontecem de forma progressiva, afetando órgãos e sistemas com a velocidade e prejuízos imensuráveis, dependendo do tipo da substância utilizada. As comorbidades, oriundas do uso descontrolado de drogas repercute em um incalculável número de doenças e alterações orgânicas4.

No campo social, o abuso e a dependência química são geradores de transtornos tanto para o indivíduo como para o grupo social em que vive. O uso da droga leva à perda de emprego e de bens materiais, ruptura familiar, afastamento de amigos e religião, instabilidade financeira, entre outros. No aspecto psicológico, as drogas afetam profundamente o equilíbrio dos usuários, que muitas vezes perdem o controle da situação chegando a um grau de depressão tão forte que pensam até em suicídio17,13.

Em relação à família, os conflitos e as perdas a que estão submetidos cotidianamente constituem-se em fatores preponderantes para o agravamento da situação, pela dificuldade de controle e tratamento da dependência, hoje caracterizada como um grave problema de saúde pública, haja vista as implicações que acarretam para a pessoa e para a sociedade13.

Ao abordar estes diferentes aspectos, o teatro possibilitou reflexões importantes dos estudantes como expressadas em suas narrativas.

As pessoas drogadas, elas fogem de casa para consumir mais droga, porque a família não quer deixar elas usarem a droga, então elas ficam morando na rua (B).

O usuário rouba o dinheiro dentro de casa ou na rua, ele é preso, sai da cadeia e começa a roubar novamente (W).

É muito triste uma família ver a pessoa mais próxima se drogando! (D).

Temos que pensar na família e nos filhos, no trabalho, em tudo que conquistamos, antes de começar a usar droga (J).

Ao manifestarem suas preocupações, os estudantes compreenderam a complexidade que envolve o uso das drogas e a amplitude de suas consequências, identificando como um campo em que os comportamentos adotados são multifacetados. Corroborando as narrativas, um estudo realizado com 30 dependentes químicos evidenciou que 77% dos usuários perderam o emprego, 80% tiveram episódio de separação, 11% tinham diagnóstico de transtornos mentais, destes 9% tentaram suicídio18.

Percebe-se, portanto, que conviver com um dependente químico não se constitui em tarefa fácil, pois são frequentes os desencontros, as brigas familiares, os sofrimentos, as decepções. O que se tem percebido no cotidiano é que os familiares, os governos e a própria sociedade se tornam impotentes para solucionar o problema, pela abrangência e complexidade que ele encerra.

Se a pessoa começa a usar drogas, ela não consegue mais largar. A família se afasta, a sociedade se afasta, todos se afastam (A).

Ficou evidente que, quando não se encontra respostas efetivas para o problema, a tendência é ocorrer o afastamento dos familiares e dos grupos da sociedade, pela impossibilidade de manter o controle da situação. A dependência química é uma doença e precisa ser enfrentada como tal. Cabe à família, à sociedade e ao poder público encontrar mecanismos potencializadores de ajuda para aqueles que se percebem "sem saída" ou, como comumente se referem, "no fundo do poço", para que possam encontrar forças e apoio necessários para tentar superar as dificuldades inerentes ao uso descontrolado e à dependência.

A influência dos amigos na determinação do consumo de bebidas alcoólicas baseia-se na premissa de que os jovens procuram acompanhar o comportamento do grupo, para que sejam aceitos como integrantes e, a partir daí, siga mas normas impostas pelo grupo. Outro fator influente na inicialização do consumo de bebidas alcoólicas é o consumo por parte dos familiares. Alguns autores afirmam que filhos de pais alcoolistas têm grande probabilidade de se tornarem alcoolistas na vida adulta4.

A metáfora utilizada para explicar a evolução do uso de substância parece pertinente.

A droga começa como uma chama e acaba como um incêndio (R).

Ao mencionar o processo evolutivo das drogas no organismo, mesmo que metaforicamente, os adolescentes reconhecem os malefícios das drogas e reiteram a importância da arte como catalisadora da construção de ideias e pensamentos e as expressões lúdicas como motivadoras da reflexão e da incorporação de saberes.

Eu gostei da apresentação, foi profunda. DROGA NÃO! (D).

CONCLUSÃO

O consumo de droga não afeta somente o usuário, mas também seus familiares e toda a comunidade. Como um problema que traz embutidos discriminação, estigma e preconceito, deve ser enfrentado ainda na adolescência, na perspectiva de se elucidar as vulnerabilidades a que o adolescente está exposto socialmente, emocionalmente e em relação à saúde. Assim, uma das possibilidades de enfocar a temática será mediante a abordagem da proteção, promoção e prevenção de riscos à saúde.

A educação em saúde, neste aspecto, deve ser compreendida como uma ferramenta de ação, que deve ser utilizada pelos enfermeiros que atuam com adolescentes, valorizando seus saberes e favorecendo a construção de sua própria identidade e responsabilidade social.

O teatro como atividade criativa e criadora de sentimentos, expectativas, sensações, mostrou-se como uma estratégia pedagógica viável e eficaz para discutir o uso/abuso/dependência de drogas e como facilitadora do processo ensino-aprendizagem.

A utilização da representação lúdica evidenciou-se como uma possibilidade exemplar, para forjar as relações e a interação entre os diferentes atores sociais, estudantes e a Guarda, sendo, neste estudo, a linguagem cênica e não verbal um recurso capaz de desvelar novas formas de se trabalhar este tema árido que é o uso de droga. Assim, a despeito da ausência de verbalização, os estudantes puderam captá-la em todo o seu dinamismo e complexidade.

O estudo mostrou que os adolescentes estavam antenados com os atores e o assunto, como pode ser constatado em suas declarações sobre o processo evolutivo do uso de substâncias, passando pela experimentação, uso abusivo e dependência, assim como as consequências do uso descontrolado para o indivíduo e o grupo social que convive.

O interesse e a receptividade demonstrados ao longo da apresentação evidenciaram-se também pela postura de contemplação que foi revelada em seus diálogos e em suas narrativas, por ocasião das descrições por escrito, suas percepções e pelo debate com os atores, grupo habilitado a trabalhar com estudantes do ensino fundamental e médio, com muito êxito.

Os resultados permitem ainda enfocar um ponto fundamental para nossa reflexão, a maneira de abordar o assunto com os adolescentes. Em uma perspectiva otimista, nos dão a convicção de que é pertinente dialogar com os adolescentes sobre o uso de drogas, desde que se escolham estratégias pedagógicas que estimulem o interesse dos estudantes e favoreçam a sua reflexão sobre o assunto.

Entretanto, sabe-se que discutir este assunto na escola ainda é nebuloso, apesar de esta se constituir no locus preferencial para o debate, por agregar jovens que na maioria das vezes ainda não entraram em contato com as drogas.

Assim, ressalta-se a necessidade de se investigar com profundidade a temática e as ferramentas de abordagem, na busca de respostas que sejam cada vez mais adequadas para se estabelecer o diálogo com o adolescente, a partir de evidências científicas.

O estudo limitou-se a apresentar os resultados de pesquisa de uma única escola, embora tenhamos investigado três instituições. Outra limitação é a insuficiência de referenciais teóricos que discutam a temática na perspectiva da utilização de estratégias pedagógicas pertinentes a este tipo de abordagem. Esta situação limitante dificultou um maior aprofundamento na discussão dos achados.

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